O reconhecimento da depressão como doença ocupacional

uma análise dos processos em trâmite no 1º grau do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT5) entre 2021-2023

Autores

  • Maria Eduarda Carneiro de Miranda Universidade Federal da Bahia (UFBA)
  • Lawrence Estivalet de Mello Universidade Federal da Bahia (UFBA)
  • Adriana Brasil Vieira Wyzykowski Universidade Federal da Bahia (UFBA)

DOI:

https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.285

Resumo

Introdução: O artigo analisa as dificuldades existentes no reconhecimento judicial da depressão como doença ocupacional, abordando o adoecimento mental no ambiente laboral sob a perspectiva da centralidade do trabalho e das metamorfoses ocorridas na organização laboral diante do cenário de precarização.

Objetivo: O objetivo geral deste trabalho é investigar os desafios no reconhecimento judicial da depressão, tendo como objetivos específicos: (i) compreender as relações entre trabalho e adoecimento mental; (ii) averiguar as possibilidades da categorização da depressão como doença ocupacional; (iii) investigar as dificuldades no reconhecimento judicial da natureza ocupacional da depressão a partir da análise de processos em trâmite no Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região.

Metodologia: Trata-se de pesquisa exploratória, de procedimento dedutivo e abordagem qualitativa. Utiliza-se a fase de pré-análise da técnica de coleta de dados proposta por Laurence Bardin na seleção dos processos judiciais, com a análise de conteúdo ilustrativa dos resultados obtidos.

Resultados: Nos processos judiciais analisados, observa-se a expressiva prevalência nas petições iniciais das formas de gestão do trabalho como causa alegada do adoecimento mental. Em relação aos laudos periciais, constata-se a baixa quantidade de especialistas em psiquiatria, a resistência no reconhecimento do nexo de (con)causalidade sob o argumento da multifatorialidade da depressão, bem como o protagonismo das doenças osteomusculares em detrimento das doenças psiquiátricas. No tocante às sentenças, observa-se a tendência em seguir os laudos periciais, ressaltando-se, no entanto, o impacto que a ausência de demais provas, como documentais e testemunhais, podem ter no deslinde dos feitos.


Conclusão: A natureza multifatorial dos transtornos depressivos ainda é compreendida no âmbito judicial como obstáculo ao reconhecimento do nexo de (con)causalidade entre o adoecimento e o trabalho, existindo uma complexidade na produção da prova, sobretudo a pericial, que impacta diretamente no deslinde das demandas trabalhistas.


PALAVRAS-CHAVE: adoecimento mental; depressão; doença ocupacional; trabalho.

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Biografia do Autor

  • Maria Eduarda Carneiro de Miranda, Universidade Federal da Bahia (UFBA)

    Mestranda em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)). Lattes: http://lattes.cnpq.br/8439715842259663. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-0744-6772. E-mail: eduardamiranda1808@gmail.com.

  • Lawrence Estivalet de Mello, Universidade Federal da Bahia (UFBA)

    Professor de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito da UFBA. Doutor e Mestre em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Bacharel em Direito (UFPEL) e em Filosofia (UFPR). Lattes: http://lattes.cnpq.br/4951581895472606. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2882-4883. E-mail: lawrence.emello@gmail.com.

  • Adriana Brasil Vieira Wyzykowski, Universidade Federal da Bahia (UFBA)

    Professora adjunta da Universidade Federal da Bahia – UFBA. Mestre em Relações Sociais e Novos Direitos pela UFBA. Doutora em Jurisdição Constitucional e Novos Direitos pela Universidade Federal da Bahia. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6270353731608564. ORCID:
    https://orcid.org/0000-0002-0215-5722. E-mail: adrianawyzy@gmail.com.

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Publicado

2025-10-31

Edição

Seção

Artigos em Fluxo Contínuo

Como Citar

O reconhecimento da depressão como doença ocupacional: uma análise dos processos em trâmite no 1º grau do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT5) entre 2021-2023. (2025). Revista Jurídica Trabalho E Desenvolvimento Humano, 8. https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.285
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